“Existe um antes e um depois do meu filho, e nada mais voltou a ser como era.”
É assim que muitas mães descrevem a perda de um filho no trânsito. Uma ruptura definitiva. A vida segue, mas nunca mais da mesma forma. O que antes era rotina se transforma em ausência. A dor não desaparece, apenas se aprende a conviver com ela.
Jaqueline Regina Herter, mãe enlutada do grupo de apoio da Fundação Thiago Gonzaga, vive esse antes e depois. Seu filho, Bruno, de 18 anos, foi atropelado na saída do colégio. Um cenário comum nas cidades brasileiras. Previsível. Evitável.
“Minha vida mudou de um jeito que é difícil até de colocar em palavras. Existe um vazio que está presente todos os dias”, relata.
O trânsito não é acaso, é resultado de decisões
Histórias como a de Jaqueline costumam ser tratadas como fatalidades. Mas não são. O trânsito não é um acaso. Ele é resultado de decisões.
E a principal delas é a velocidade.
A velocidade define o tempo de reação, a capacidade de evitar um impacto e, principalmente, as chances de sobreviver a ele. A 30 km/h, uma pessoa atropelada tem alta probabilidade de sobreviver. A 60 km/h, essa chance praticamente desaparece.
Essa diferença não é técnica. É a diferença entre voltar para casa ou não.
Velocidade urbana e risco coletivo
Quando falamos de velocidade nas cidades, estamos falando sobre o nível de risco ao qual todos estamos expostos diariamente – pedestres, ciclistas, motoristas, crianças saindo da escola, famílias atravessando a rua.
Ainda assim, esse debate frequentemente fica em segundo plano.
Projeto de Lei 2789/2023 e a readequação das velocidades
No Brasil, o Projeto de Lei 2789/2023 propõe a readequação das velocidades urbanas com base em evidências, alinhando o país a práticas já adotadas internacionalmente. Mais do que uma mudança normativa, trata-se de uma escolha sobre o tipo de cidade que queremos construir: uma cidade que aceita perdas como parte do cotidiano ou uma cidade que organiza seu sistema viário para proteger a vida.
Decisões públicas salvam ou tiram vidas
Para quem toma decisões, essa não é uma discussão abstrata.
“Uma decisão no trânsito foi suficiente para interromper a vida do meu filho”, diz Jaqueline. “Decisões públicas também têm esse peso.”
Reduzir velocidades não é apenas uma medida de mobilidade. É uma política de preservação da vida. Sem velocidades seguras – especialmente abaixo de 60 km/h nas áreas urbanas – ninguém está seguro.
Nenhuma história deveria ser interrompida
Atrás de cada pessoa que circula pelas ruas existe uma história, uma família, um futuro.
E nenhuma dessas histórias deveria ser interrompida por algo que sabemos como evitar.
