O luto é um dos processos emocionais mais universais e, ao mesmo tempo, um dos mais desafiadores de compreender. Ainda que todas as pessoas, um dia, passem por ele, nem sempre sabemos como lidar com a própria dor ou como acolher quem perdeu alguém.
Para aprofundar essa reflexão, tivemos uma conversa aberta com a psicóloga voluntária da Fundação, Regina Parmeggiani, que há anos acompanha famílias impactadas por perdas, principalmente em casos de sinistros de trânsito. Suas percepções ajudam a entender os aspectos emocionais, sociais e formativos relacionados ao tema.
O que é o luto?
Durante a conversa, Regina sintetizou o luto como “o conjunto de situações emocionais vividas pela perda de um ente ou algo querido”. Uma definição simples, mas que abrange a pluralidade de sentimentos que surgem nesse processo: tristeza, confusão, culpa, saudade, medo, angústia e até mudanças na rotina e no corpo.
Segundo ela, não há diferenças essenciais entre o luto por sinistros de trânsito e outras causas de morte. A dimensão emocional é, em essência, a mesma. O que pode variar é a intensidade de determinadas reações e o tempo que elas levam para diminuir.
Regina destaca que, em casos de suicídio, o sentimento de culpa costuma persistir por mais tempo. Já em perdas decorrentes de trânsito, a dificuldade de retornar ao local do sinistro pode ser incapacitante por um período prolongado. Ainda assim, essas variações não caracterizam tipos distintos de luto, mas nuances de um processo que é sempre singular.
Por que as pessoas têm tanto medo de falar sobre luto?
Um dos pontos centrais é o silêncio que costuma cercar as perdas. Regina observa que a maior parte das pessoas tem medo de “mexer na ferida”, como se falar sobre a morte pudesse intensificar a dor.
“É o medo de magoar, de entristecer ainda mais”, comenta. Mas, para ela, o cuidado não está em evitar o assunto, e sim em respeitar o ritmo de quem está enlutado.
A melhor abordagem, explica, é perguntar diretamente, com delicadeza, se a pessoa se sente à vontade para falar sobre a perda naquele momento. Há dias em que o silêncio é mais confortável, em outros, a necessidade de falar é urgente.
O que mais afasta, segundo Regina, é tomar decisões sem consultar quem sofre. Falar sem perguntar pode machucar. Evitar o assunto por conta própria também. O acolhimento surge da escuta: o enlutado é quem diz o que precisa.
A formação em Psicologia está preparada para lidar com o luto?
Regina foi direta ao comentar sobre a preparação dos futuros psicólogos: “Os cursos de Psicologia não têm preparado suficientemente para o atendimento do luto.”
Apesar de o luto ser um fenômeno transversal à clínica, à saúde pública e ao atendimento comunitário, disciplinas específicas ainda são raras. A maioria dos profissionais acaba buscando formação complementar por interesse próprio, seja em cursos, estágios especializados ou grupos de estudo.
Essa lacuna, observa a psicóloga, deixa muitos profissionais sem ferramentas adequadas para acolher processos tão sensíveis.
O que alguém enlutado deveria saber?
Ao final da conversa, Regina compartilhou uma reflexão que resume sua visão sobre o tema:
“O luto faz parte da vida. A vida continua. De outra maneira, mas continua. E é possível readquirir o prazer de viver com dignidade.”
Para ela, compreender que o luto é um processo, e não um estado permanente, ajuda a reduzir a culpa por seguir adiante ou por ainda não ter conseguido retomar a rotina.
Regina enfatiza, ainda, a importância de buscar ajuda profissional quando a dor se torna difícil de manejar sozinho. O cuidado emocional, nesses casos, é um aliado fundamental.
Quer participar dos nossos grupos de apoio ao luto?
Os grupos de apoio da Fundação acontecem uma vez por semana, sempre conduzidos por nossa equipe de psicólogos. Às terças-feiras, o encontro presencial ocorre no Tecnopuc, com o Dr. Paulo e o psicólogo Malone. Já às quartas-feiras, o grupo online é realizado pela psicóloga Regina e pelo Dr. Paulo.
Se você quiser saber mais ou participar, envie uma mensagem para o nosso Instagram @vidaurgente. Nossa equipe encaminhará seu contato para a assistente social, que fará o acolhimento inicial e explicará como funcionam os encontros.
